CARTA-MANIFESTO: UM CHAMADO À TRANSFORMAÇÃO
Para as mulheres, mulheridades, pessoas de gêneros dissidentes e familiares que vivem, resistem e cuidam dentro e fora dos muros: esta carta nasce da nossa voz e da nossa memória.
Mas para que o futuro seja diferente, ela precisa se tornar um compromisso de todos e todas nós. Dirigimo-nos a toda a sociedade, às lideranças, governos, parlamentos, setor privado e sistemas de justiça de todo o Sul Global: este é um convite inadiável à construção de um novo caminho.
NÃO HÁ JUSTIÇA SEM NÓS
No hay justicia sin nosotras
No justice without us
Este manifesto nasce da realidade de quem conhece o sistema de justiça e o cárcere de perto. Sabemos, no peito e na pele, que o atual modelo falhou. A punição isolada não tem gerado paz; tem gerado fraturas sociais e o aprofundamento das desigualdades. Antes mesmo da prisão, populações historicamente vulnerabilizadas em nossos territórios — mulheres pobres, negras, migrantes, povos originários, habitantes das periferias — já enfrentam a falta de proteção e a criminalização de suas existências.
Dentro e fora dos muros, o que vemos é a ruptura de famílias, a invisibilidade e o silêncio. Do lado de fora, a promessa de reinserção esbarra em estigmas e portas fechadas.
Carregamos no corpo as marcas desse sistema, mas seguimos construindo possibilidades. Por isso, demanda-se com força: não queremos reintegração a um mundo injusto. Queremos transformá-lo.
A verdadeira segurança pública e social nasce da justiça. Justiça não é punição e não é só responsabilização. Justiça é cuidado. Justiça é reparação. Justiça é proteção social e sustentação da vida. Justiça é viver com dignidade. Não há paz sem justiça.
O cuidado não pode continuar sendo tratado como uma responsabilidade unilateral e trabalho invisível, impostos apenas às mulheres. O cuidado é um pilar fundamental para a coesão de qualquer sociedade saudável. No Sul Global, nossas bases comunitárias já desenvolvem tecnologias sociais de sobrevivência e apoio mútuo. É hora de transformar essas soluções locais em políticas de Estado.
Contudo, não faremos isso sozinhas. A construção de uma justiça do futuro exige uma aliança ampla. Propomos o seguinte:
Não há política justa sem perspectiva de gênero e cuidado. E não há justiça sem nós.
O Sul Global é o nosso ponto de partida, mas a transformação que reivindicamos não tem fronteiras. Convidamos você a levar este manifesto para o seu território, dialogar com sua cultura, sua língua e seus valores. Que ele ecoe nas ruas, parlamentos, empresas, espaços educativos, comunidades, locais de privação de liberdade e outras instituições.
Em aliança, vamos transgredir os muros — inclusive aqueles que permanecem de pé muito depois de se deixar o cárcere.
Como dizem por trás dos muros, é hora do “ar das sete”1: o momento exato de levantar. E esta campanha é o nosso levante coletivo — não haverá justiça sem nós.
Como dicen tras los muros, es hora de tomar “el aire de las siete”: el momento exacto de levantarse. Y esta campaña es nuestro levante – no habrá justicia sin nosotras.
As they say behind the walls, it is time to catch “the 7 AM air”: the exact moment to rise. And this campaign is our rising – there will be no justice without us.
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1 “Ar das sete” é uma expressão utilizada nos presídios brasileiros, a qual significa que é a hora de se levantar, isto é, acordar e iniciar o dia.
“El aire de las siete” es una expresión utilizada en las cárceles brasileñas que significa que es hora de levantarse, es decir, despertar y comenzar el día.
“The 7 AM air” is an expression used in Brazilian prisons that means it is time to get up, that is, to wake up and start the day.